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segunda-feira, 6 de junho de 2011

CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES DA EDUCAÇÃO: Ajudem uma professora a formar um cidadão, a edificar uma nação!

Assim como milhares de professores brasileiros, assisti e aplaudi o pronunciamento da professora Amanda Gurgel, pois vivemos situações semelhantes...
Note bem: “semelhantes”, pois o nosso cotidiano é bem mais complexo e menos cômodo.
Ela pode exibir o contracheque em rede nacional, eu não! 
Seria humilhante, tanto para mim, quanto para os colegas. Sou graduada por uma universidade pública, pós-graduada, fui aprovada em dois concursos públicos da mesma rede educacional. Mas, meu contracheque não posso exibir.
Ela pode ir de ônibus ou de carro, eu não!
Não tenho carro, não sei dirigir e não tem ônibus que faça o percurso de quase três quilômetros da minha casa à escola, contudo, se tivesse iria a pé mesmo, porque não tenho como arcar com uma despesa a mais.
Ela pode multiplicar o salário por três, eu não!
Tenho que planejar uma única aula de diversas formas, pois, esta irá depender da aceitação dos meus alunos a cada manhã. Somado a este múltiplo planejar (Acolhida, curtindo a leitura, correção do “Para Casa”, desenvolvimento da atividade, revisão do dia, e encaminhamento  do “Para Casa” , todos subordinados  aos objetivos delimitados em consonância com cada atividade proposta) tenho ainda a rotina burocrática: preencher cotidianamente fichas de acompanhamento mensal, acompanhamento de livros lidos, ficha de leitura, diário de classe, redefinição do cronograma do reforço escolar, etc. Logo, humanamente falando não posso assumir um terceiro turno, já que o segundo é destinado ao reforço escolar e o terceiro é comprometido com o constante planejar.
Some-se ao crescente planejar os afazeres domésticos: lavar, passar, cozinhar, limpar casa, etc., porque com a remuneração que percebo mensalmente não posso pagar a auxiliar de serviços domésticos.
Ela disse que não pode esperar por melhorias no sistema para qual trabalha.
Eu posso?
O “cuscuz alegado” dispensa comentário, porque o cafezinho que bebo na escola, eu faço absoluta questão de custear.
O estado que ela reside e trabalha faz concursos públicos, o Piauí faz testes seletivos, talvez para enxugar o orçamento, minimizar as despesas com encargos sociais, questões trabalhistas inerentes aos vínculos empregatícios.
Ela descreveu de forma sucinta a sua rotina.
Farei menção a apenas algumas vivências para justificar um pedido às autoridades municipais, estaduais e federais: Direcionem um olhar a esta realidade e ajudem os professores a transformar estas crianças em cidadãos
Como?
Através da valorização do profissional da educação conforme reza a legislação educacional vigente:
Constituição Federal artigo 206, inciso V

[...]valorização dos profissionais do ensino, garantindo, na forma da lei planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União. (BRASIL, 1988)

LDB 9694/96 Art. 3° Inciso VII “valorização do profissional da educação escolar;” (BRASIL, 1996).
Em relação ao que a Lei impõe como competência docente constante no Art. 13...

Os docentes incumbir-se-ão de:
I – participar da elaboração da proposta pedagógica do
estabelecimento de ensino;
II – elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a
proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;
III – zelar pela aprendizagem dos alunos;
IV – estabelecer estratégias de recuperação para os alunos
de menor rendimento;
V – ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos,
além de participar integralmente dos períodos dedicados
ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento
profissional;
VI – colaborar com as atividades de articulação da escola
com as famílias e a comunidade.  (BRASIL, 1996)


... Devo ressaltar que tenho me empenhado para não descumprir nenhuma destas normas e das demais ditadas pelo sistema ou pela equipe gestora, até porque, pode gerar ônus e o meu salário não permite que eu me dê ao luxo de ter algo descontado no final do mês.
Ajude-nos também a lidar com as diversas vicissitudes que nos afetam cotidianamente, circunscritas na miséria humana. Ao me reportar à miséria não me restrinjo apenas à financeira, mas, a: social, moral, cultural e psicológica, evidenciadas nas diversas formas, tais como:
Alunos sonolentos afetados por violências em seus lares (brigas envolvendo as mães e seus companheiros, geralmente padrastos) ou na circunvizinhança, impedindo-os de ter uma noite de sono reparador;
Aluno que passou a noite em festa (mesmo menor de idade),
Aluno com medo de invasão domiciliar a exemplo do ocorrido em casas vizinhas;
Crianças que a mãe trabalha a noite em bares e restaurantes, não tendo com quem deixá-las, leva-as para o trabalho, logo, só podem dormir ao retornarem para casa altas horas;
E casos incomuns de criança que a mãe ministra aleatoriamente sonífero para poder sair à noite.
Aluno faminto por falta do desjejum, às vezes até tem a massa para o cuscuz, mas a mãe tem que sair cedo e não tem tempo para preparar, outras vezes não há nada a fazer.
Órfãos de pais vivos criados por avós, tias, parentes que talvez nem tenham tanto tempo para verificar as necessidades básicas.
Aluno totalmente desmotivado pela carência cultural que o cerca. Este exemplo vale à pena ilustrar:
Na tentativa de motivá-los sempre falo que a escola prepara para o sucesso na vida adulta: aprovação no vestibular ou concurso, porta aberta para um bom emprego e uma vida digna. Eis algumas respostas:
Professora, tu passou no vestibular, estudou ai na universidade, passou em concursos e vive aqui nesta vida, eu não quero ser igual a você. Ganhar pouco e lidar com esse povo teimoso.” (Menino de 11 anos)
Professora, meu pai não estudou e tem dinheiro e carro bom e tu não tem. (Criança de 10 anos) 
Não perguntei a profissão do pai, melhor não saber.
“Professora meu tio tá é na cadeia preso, os fios dele recebe cada um mais de 700 real todo meis, é quase o dobro do professor, quando eu crescer mato um, vou pra cadeia e meus fios recebem dinheiro. Pra que estudar ou trabaiar?” (Menino de 12 anos)
“Fessora pra quê estudar e trabaiar, só venho pra cá porque minha mãe não quer perder a bolsa famia, ela diz que vocês tão aqui é pra agüentar mermo os desaforos que nois quiser, pra isso estão ganhanu dinheiro.” (Menina de 9 anos)
Não posso incluir neste texto as agressões verbais trocadas entre alunos e dirigidas as professoras, haja vista, que devo levar em consideração a educação que recebi em família, nunca proferir palavras de baixo calão.
Assim é o convívio com as crianças... O atendimento às mães é delicado, degradante e sofrido, para as professoras
Elas negligenciam os filhos em todos os seus direitos fundamentais. (alimentação, educação, habitação, saúde etc.). Nesse cenário a agressão física e verbal é recorrente, então, exigem que a professora supra toda e qualquer carência dos filhos. Quando a criança chega em casa com uma queixa seja verídica ou não, elas vem à escola com ameaças. Ameaças das mais variadas: “Tapa na cara”, “taca lá fora”, denúncias aos chefes políticos, à imprensa etc.
A professora Amanda ressaltou que quando o assunto é o preceito legal “educação de qualidade”, autoridades e a sociedade como um todo cobram apenas do professor. Foi enfática ao afirmar que esta não é uma atribuição exclusiva do professor, mas do Estado. Acrescentou ainda que, não pode salvar a humanidade apenas com o quadro e o giz. Neste espaço, desejo reiterar, sua colocação e indignação diante da realidade da Educação Brasileira.
Portanto, a questão que se interpõe é: a qualidade da educação pressupõe, entre outras coisas, a valorização do profissional. Onde está a valorização do profissional que cotidianamente tem que lidar com estas e outras vicissitudes?
Na remuneração?
Na ausência de uma equipe multidisciplinar?
Na formação continuada insignificante?
Na carência estrutural das escolas?
Nas mais variadas pressões de chefes, de alunos e pais de alunos?
Na auto-estima submersa na pressão, na falta de respeito, apoio, autonomia e dignidade?
Diante do exposto quero conclamar as autoridades para ajudar não apenas uma professora, mas, todos os profissionais da educação (exceto aqueles que discordam deste ponto de vista) a transformar esta realidade e efetivamente formar cidadãos.

Referências:

BRASIL.  Lei  n° 9.394 que estabelece as Diretrizes e  Bases da Educação Nacional Disponível em:  <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm> . Acesso em 06.06.2011

BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em 06.06.2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, assim falava a canção...”

Milton Feitosa é a personificação da doação, da fraternidade, da partilha, da benevolência, da alegria e tantos quantos aspectos de bondade e humanidade sejam possíveis enumerar.
Ele sempre ensinou onde devemos guardar aqueles que nos são caros: “dentro do coração”,  
O “Nascimento” compôs esta musica, Milton, foi além, emprestou significado, afinal ele experienciou esta composição por toda sua vida.
Contar com amizade de Milton era nunca caminhar sozinho, nos momentos marcantes felizes, difíceis, tristes ele sempre se fazia presente, algo assim: “Pois seja o que vier, venha o que vier”, com ele sempre se poderia contar.
 Partilhamos uma difícil viagem de volta de Teresina ao Massapê (Padrinho Miguel, Netinho, Milton e eu) numa madrugada chuvosa de maio, quando perdemos madrinha Biluca. Embora, chovesse mansamente, uma tempestade torrencial brotava das nossas almas, porém, aos poucos o desespero se tornou ameno, pois, tivemos um ombro para chorar e um amigo para amparar nossas lágrimas e dividir nossa tristeza.
Entretanto, nem de tristeza a vida se desenha, compartilhamos em família momentos felizes na agradável companhia do amigo Milton
 Em síntese choramos e cantamos juntos... 
 Impossível seria, agora na hora do adeus, não relacionar a este ser que se consubstanciou na mais pura essência de amizade, a letra desta canção...
Mesmo que o tempo e a distância digam não".  Mesmo esquecendo a canção
O
que importa é ouvir a voz que vem do coração
”.
Por mais que a melodia voltas e voltas na memória, o pranto teima em rolar.. .
Mas, quem cantava chorou ao ver seu amigo partir...”
Do legado deixado pelo primeiro secretário de saúde e ex-vereador de Massapê do Piauí, Milton Carvalho Feitosa, um sobressai aos demais: o exemplo de humildade e fraternidade.
Ás irmãs e irmãos, Milton - o caçula querido - deixa como herança um amor incondicional que jamais será dizimado. Á filha e sobrinhos, além do amor, deixa o referencial de altruísmo e integridade.
Uno-me a família neste momento de dor e tristeza, porém, tenho a certeza e compartilho com todos: um ser humano tão magnificamente divino quanto o Milton, que aqui viveu para semear os melhores sentimentos e praticar as maiores virtudes, está agora no espaço etéreo aconchegado nos braços do criador.  

Registro de momentos memoráveis:

 Lançamento do meu Livro Palavra de Amor  em Massapê do Piaui 1998
(Eu, papai, mamãe e Milton)

(Seu Teodomiro - presidente da câmara na época- eu papai, mamãe, meu filho Thiago, Milton, Francimar e o Pe. Francisco Pereira Borges)
Foto: Maurício Teles
 Milton levou a Massapê  Mão Santa, o então governador do estado do Piaui.  
Buscando parcerias com o estado e melhorias no âmbito da saúde

 
Foto: Maurício Teles

Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar”...



[1] Canção da América Milton Nascimento http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/27700/


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cotidianidades: memórias do rádio.

 
No decorrer do mês de janeiro, o recital 99[1] foi relembrado por várias vezes. Isso me levou a refletir acerca da força do rádio, e de como ele influencia e marca a vida das pessoas, mesmo em um tempo em que vivenciamos o apogeu das tecnologias da comunicação e informação.  
 Numa tarde qualquer deste mês, estava em casa conversando com Márcia[2], acadêmica de História da UFPI, sobre a pesquisa que ela está fazendo voltada à história do rádio picoense para o embasamento do seu tcc. Ela veio com o intuito de me entrevistar, porém, como não tenho conhecimento apurado acerca do tema, acabamos por divagar sobre cotidianidades nas ondas do rádio. Discorremos acerca de vários temas inluindo as lembranças do Recital 99 curiosidades e situações inusitadas.
Lembrei-me de certa vez que fui à visita de um ano de falecimento,da irmã de uma amiga em outra cidade, e durante a reza me senti incomodada com comentários que algumas moças faziam baixinho e olhavam na minha direção. Continuei rezando, cantando e ao final as moças se dirigiram a mim e uma perguntou? “A senhora é Ana Maria Coutinho?” Desconfiada, respondi: “Sou por quê? Eles responderam em coro: “Nós somos ouvintes do seu programa!” [...] “Gostamos demais daquelas mensagens, das poesias, das músicas...”  Até que uma perguntou: Como é mesmo aquela história do  Narciso que a senhora contou para o Dênis (operador de áudio) quando tocou a música de Caetano Veloso?” E antes que eu respondesse a outra perguntou: Quem é mesmo a cabeleireira que a senhora disse que faz sua cabeça? E justificou: “É que eu quero ir arrumar meu cabelo , se a senhora vai e porque ela é boa mesmo!” Conversamos sobre diversos assuntos abordados no Recital 99, convidados que estiveram no programa e uma delas elogiou a participação de Graça Moura, outra afirmou que trechos  de obras literárias que apresentei nos programas foram questões de vestibular.
Passado algum tempo despedi-me de minhas ouvintes, estava na hora de voltar a Picos. No percurso de volta fiquei refletindo sobre o ocorrido, a importância do rádio como veículo de comunicação de  informação e formação e a influência deste no cotidiano das pessoas. 
Depois de reportar-me a este episódio, perguntei a Márcia porque ela escolheu “o rádio picoense” como tema para seu trabalho de conclusão de curso? Foi então que ela me surpreendeu como com a resposta : uma história de amor com o programa “Correspondente do interior” da grade de programação da Rádio Difusora. Eis aí seu relato na íntegra, porém, é impossível traduzir a emoção expressa em cada palavra:

"Eu tenho uma admiração profunda pelo programa “Correspondente do Interior” e pelo seu primeiro apresentador, José Elpídio, temos um elo marcante, uma história de vida, da minha vida!
Eu nasci em 15 de maio de 1989, aqui em Picos, as famílias dos meus pais estavam apreensivos, porque minha mãe teve problemas, assim que terminou a cesárea, em meio à alegria e empolgação meu pai lembrou que precisava avisar a família residente em São Cristóvão (hoje localidade do município São Luís do Piauí).
Naquele tempo a comunicação era difícil, lá não tinha serviço de correios, telefone então, só tinha aqui Picos. Meu pai não teve dúvida, se dirigiu à Rádio Difusora de Picos e mandou passar o aviso no “Correspondente do interior”. E assim eu fui anunciada na voz de José Elpídio, através das ondas sonoras da Difusora de Picos:
‘Atenção familiares de Maria Helena de Araújo Sousa em Curralinho, município de Pimenteiras e São Cristóvão, município de São João da Canabrava. Antonio Francisco de Sousa avisa que a mesma ganhou neném e ambas passam bem, sendo a criança do sexo feminino e o parto cesariana.’
Meus parentes contaram da alegria e do alívio que sentiram ao ouvir a notícia, e meu tio brincou muito tempo comigo dizendo: “Esta é a famosa Márcia, anunciada pelo rádio!”
Esta é uma lembrança que guardarei por toda a minha vida, pena que eu não tenha uma gravação. Fico imaginando com seria a voz do locutor? Qual entonação ele deu ao texto? E se na hora ele percebeu a dimensão daquele aviso? O anúncio de uma vida, minha vida! Por isso, escolhi este tema para minha monografia e apesar da escassez de fontes, não pretendo mudar o tema. Vou entrevistar o apresentador e direi o porquê da minha escolha." (Márcia  Sousa)
 Márcia terminou seu relato e foi embora... Deixando-me imersa em lembranças, nostalgia e reflexões concernentes a esse elo de amor e emoção como o rádio picoense, especificamente, com o programa Correspondente do interior. Quantos elos como esse haverá espalhados por ai? Quantas histórias de amor, de aflição, de tristeza, de alegria de emoção e de vida há por trás do Programa Correspondente do interior?
Semelhante ao anúncio do nascimento dela, José Elpídio fez inúmeros... Pessoas ligavam de São Paulo para avisar a família do nascimento de novos membros, das chegadas, das partidas, e assim nos recantos mais longínquos alguém recebiam noticias de seus entes-queridos. 
Lembro-me da gênese da emissora, de alguns programas, de alguns apresentadores, como o próprio José Elpídio (Correspondente do interior) e Erivan Lima (Manhã total), cada um no seu estilo conseguiu, sem pretensão, formar a dupla mais respeitada e amada na história do rádio picoense. 
E pensar que naquela época, apesar do rádio ligado durante todo o dia, e da admiração que eu nutria pelos apresentares, do orgulho que sentia de dizer que morava nas imediações da emissora, eu sequer imaginava o entrelace de valores: histórico, cultural, social e econômico que estaria por trás desse veículo de comunicação.
 No auge da adolescência eu só percebia o aspecto de entretenimento, sequer poderia imaginar a imensurável contribuição da emissora na tecitura de tantas histórias e na tessitura da sociedade picoense.
Relembrando a quantidade de cartas, telefonemas e visitas que recebi durante pouco mais de um ano com programa de uma hora diária, numa rádio de pouco alcance, concluo que, impossível seria mensurar a magnitude da trajetória desses dois locutores, ícones da comunicação radiofônica picoense, tampouco, registrar as tantas histórias vivenciadas e propagadas pelas ondas sonoras da Rádio Difusora de Picos.



[1] Programa elaborado e apresentado por Mim (Ana Maria Coutinho Feitosa) na Rádio Comunitária Junco FM
[2] Márcia de Araújo Sousa